O lava-pés é um dos episódios mais conhecidos do Evangelho. É também um dos atos de Jesus que inspira o Ministério Uns Aos Outros. Você já deve ter percebido que aqui no nosso ministério ninguém é maior que ninguém. Nós nos desafiamos constantemente para fazer valer o nosso discurso. E, não é fácil.
Mas, mais importante do que fazemos por aqui é o que você faz por aí. Como você lida com o mandamento de Jesus? Será que Ele já lavou os seus pés? O que isso significa?
Por que um deus abandonaria o alto de sua glória para lavar os pés de seus devotos? Você pode procurar na história das religiões, nos mitos de origem das culturas ou em qualquer outro dado teleológico. Nenhum outro deus fez o que Jesus fez.
Você não vai encontrar uma narrativa que fale de um deus, antes de Jesus, ou depois, que se submeteu a um dos atos de serviço mais submissos da dinâmica das relações humanas.
O lava-pés mostra Jesus fazendo o trabalho destinado ao escravo de uma casa tradicional do império romano.
O teólogo J. Jeremias diz que o escravo que lavava os pés dos visitantes era o “funcionário” mais inferior da casa.
Para os filósofos da religião isso chega a ser um contrassenso. Como pode um deus se relacionar com seus súditos se colocando abaixo deles?
Na concepção filosófica um deus não pode demonstrar amor, pois o amor limitaria o poder divino!
Mas, como sabemos, Jesus é subversivo aos preceitos humanos. Ele está para além dos padrões e expectativas humanas em relação à divindade.
Jesus atravessa as relações de poder desconfigurando nossa percepção sobre como desenvolver nossa espiritualidade.
Por que Jesus lava os pés dos seus discípulos?
Jesus lava os pés de seus discípulos para ser didático. Para exemplificar um ensinamento muito profundo sobre liderança. Os discípulos não entendem de imediato, mas depois, quando o Espírito Santo vem, os apóstolos começam a compreender que precisavam ser os “menores” da comunidade que estava começando.
Os discípulos passam a perceber que o poder não está na força, mas na fraqueza. Que a potência divina de Cristo está na sua submissão à vontade de Deus.
Diferentemente do império Romano, o poder não é resultado de domínio, fruto do medo. Para Jesus, o poder reside na compaixão, no perdão e na relação sincera entre líder e liderado.
E, dessa forma, passamos a compreender que o poder da comunidade cristã não está em seu número de adeptos. Não está na quantidade de países que foram evangelizados, catequizados ou afins.
A questão aqui é qualidade e não quantidade. Afinal, não adiantará nada sermos a expressão religiosa que mais cresce no Brasil se a miséria ainda existe, se a injustiça ainda existe, se a maldade e a indiferença ainda pautam nossas ações.
Não adianta nada eleger representantes cristãos para o espaços de poder se a realidade da nação não muda. Se os mesmos sujeitos outrora ditos cristãos estão sendo investigados por crimes de corrupção e afins.
O ensinamento do lava-pés vai exatamente no sentido contrário. Jesus mostra aos seus discípulos que eles precisam aprender a estar na camada mais baixa da sociedade. Eles precisam sentir o que os que sofrem sentem.
Precisamos descer dos nossos púlpitos, dos palcos e dos altares para começar a lavar os pés dos que sofrem. Lavar os pés daqueles que não tem voz. Daqueles que não sabem recorrer aos seus direitos. Se tivemos mais acesso à informação isso não nos faz melhores que os outros. Isso nos faz em dívida com os outros.
Se nos consideramos salvos, então, nossa obrigação é demonstrar os frutos dessa salvação. E, ao frutificar, as mudanças sociais acontecerem. O nosso papel enquanto igreja é estar no outro extremo do poder instituído, lutando contra os que abusam do poder em benefício próprio. Isso sim é ser profético.
O amor de Jesus liberta
Ao lavar os nossos pés, Jesus nos ensina que devemos amar as pessoas independentemente dos sistemas de crenças, filosofias ou da classe que elas pertencem. Precisamos amar as pessoas sem querer mudá-las por causa de nossa moral religiosa, ou mudá-las pra dar conta do que as nossas doutrinas exigem.
A bem da verdade é que precisamos parar de impor as “normas de conduta” que chamamos de “evangelho” sobre as pessoas, sobre as culturas, sobre os povos que chamamos de “não-alcançados”. Isso é um desrespeito, uma violência. Me desculpem, mas isso não é amar.
Não é transformando os outros em cristãos que eles conhecerão o amor de Jesus. Não é catequizando todo mundo que o mundo será um lugar melhor. Uma coisa não tem a ver com a outra. O processo é no sentido contrário a isso. Primeiro amamos sem impor condições e, depois, as pessoas escolhem se querem ser cristãs ou não.
O amor de Jesus é tão transcendente que ele nos liberta, inclusive, para que possamos crer no que quisermos. A doutrina teológica cristã, por outro lado, nos leva a ter uma postura violenta sobre as pessoas que creem diferente de nós. E isso precisa mudar urgentemente.
Jesus não questiona a crença de ninguém. Ele, apenas ama. E, ama, inclusive, quando é traído por alguém que anda lado a lado com ele. Você conhece a história, Judas não creu na divindade de Cristo. Mas, Jesus não deixou de amá-lo. Inclusive, Jesus também lavou os pés dele.
É importante lembrar que de acordo com o texto bíblico Judas estava à mesa com Jesus. Ele saiu porque quis. Entregou a localização de Jesus para os soldados do Templo porque quis. Ele exerceu o livre arbítrio ao qual todos nós também temos direito.
E, depois de ter seus pés lavados, depois de ter participado da ceia, depois de ter ouvido tudo o que Jesus havia dito sobre si. Judas, voluntariamente, saiu e foi ter com os líderes judeus. Judas agiu assim porque achava que o que estava fazendo era o certo.
Judas compreendeu que o reino que Jesus estava propondo era um reino espiritual. Até brincamos entre os teólogos que Judas foi o único dos discípulos que, realmente, entendeu que Jesus não estava propondo um reino político ou uma reforma econômica.
Talvez, você também acredite que o “certo” é que as pessoas mudem suas crenças, suas tradições, suas práticas ritualística para, então, serem amadas por Jesus. O que tenho a te dizer é que o amor de Deus transcende tudo, inclusive, o meu e o seu achismo.
O amor de Jesus é libertador. E, assim como desejamos que ele liberte as pessoas de suas crenças limitantes, nós também precisamos ser libertados da nossa própria religiosidade. Jesus nunca esteve interessado em fundar uma nova religião. O que ele nos ensina é exercer uma espiritualidade livre que resulte no amor uns pelos outros.
Jesus ama incondicionalmente
Jesus lava os pés de quem ele bem entender. Ele salva quem ele bem entender. Nem eu, nem você, temos nada a ver com isso. O nosso papel é, apenas, seguir o exemplo de Jesus e, simplesmente, amar sem estabelecer condições para isso.
Amar uns aos outros como Ele nos amou. Veja a potência disso. Nós também devemos amar todas as pessoas como ele nos amou. Afinal, Jesus é o novo padrão de amor que precisamos ter. Pense comigo!
Antes, o padrão era amar os outros como a si mesmo. Esse é o padrão estabelecido pela Lei Mosaica, que veio para substituir a dinâmica da Lei de Talião: “olho por olho, dente por dente”.
Jesus ressignifica a Lei escrita por Moisés. Ele mostra que a vingança (lei de talião) não resolve. E, também, mostra que amar os outros como nós mesmos ainda não é suficiente.
O novo padrão é amarmos uns aos outros como Jesus nos amou. E como ele nos amou? Ele lavou nossos pés. Ele nos chamou à mesa e partilhou o pão. Ele morreu por mim e por você.
Jesus nos amou ao ponto de morrer. Esse é o nível mais profundo de amor. Talvez, jamais conseguiremos fazer isso. Mas, ele deve ser a nossa referência. O alvo a ser seguido.
Afinal, se um deus deixou sua glória, se tornou como nós e morreu para nos livrar da justiça divina, o mínimo que podemos fazer é tentar amar [incondicionalmente] uns aos outros, assim como ele nos amou.
Minha oração é que toda quinta-feira de lava-pés possamos lembrar dessa atitude inspiradora de Jesus e, antes de enquadrar as pessoas em padrões que temos por “certos” possamos amá-las, incondicionalmente, amá-las.



