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Calor extremo pode causar até 451 mil mortes nos primeiros meses do atual El Niño, estima estudo; previsão é de 13,3 mil mortes no Brasil

Relatório é assinado por pesquisadores do Climate Impact Lab, da Universidade de Chicago, e projeta mais 239 mil mortes nos próximos seis meses

Um estudo estima que 451 mil pessoas podem morrer em decorrência do calor nos primeiros meses do atual episódio de El Niño, entre junho de 2026 e fevereiro de 2027. O relatório é assinado por pesquisadores do Climate Impact Lab, da Universidade de Chicago, e projeta mais 239 mil mortes, com margem de erro de 11 mil, nos próximos seis meses. Para o Brasil, são estimadas 13,3 mil mortes no período.

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Os autores estimam que as temperaturas globais sobre áreas terrestres ficarão 1,2°C acima do normal nos próximos meses. O período deve registrar 44% mais dias de calor extremo do que um ano considerado normal.

O relatório compara a projeção das mortes provocadas pelo calor às cerca de 6,8 mil pessoas que se acredita terem morrido ou desaparecido na recente enchente repentina no Nepal. A estimativa para o calor é aproximadamente 65 vezes maior.

Sul Global concentra maiores projeções

As regiões que devem apresentar os maiores aumentos nas mortes relacionadas ao calor nos próximos seis meses estão principalmente no Sul Global.

Nos países do Sahel, a estimativa é de 66,8 mil mortes adicionais relacionadas ao calor entre setembro e fevereiro em comparação com um ano normal. Quase metade desse total estaria concentrada na Nigéria, com 31,4 mil mortes.

O Sudão aparece com 17,5 mil mortes adicionais projetadas, seguido por Níger, com 10 mil, e Chade, com 8 mil.

No Sudeste Asiático, Filipinas, Vietnã, Tailândia e Camboja somariam 19,4 mil mortes adicionais. Para a Indonésia, a projeção é de 19,3 mil.

Na Índia, o estudo estima 15,8 mil mortes adicionais nos seis meses analisados. Para o Brasil, são projetadas 13,3 mil mortes.

Parte das mortes deve ocorrer até fevereiro

O relatório aponta que o período de maior concentração das mortes não será igual em todos os países. Em alguns locais com projeções elevadas, uma parcela importante deverá ocorrer na segunda metade da janela de seis meses, o que, para os autores, ainda oferece tempo para a adoção de medidas.

Entre dezembro e fevereiro, as estimativas adicionais são de 15,4 mil mortes na Nigéria, 10 na Indonésia, 8 mil no Brasil e 7,4 mil na Índia.

Mesmo depois de fevereiro de 2027, regiões do Hemisfério Norte, especialmente Índia e Paquistão, podem continuar registrando aumento das mortes relacionadas ao calor durante o verão.

Calor de hoje pode antecipar cenário de décadas futuras

O relatório associa grande parte do aumento de temperatura ao atual “Super El Niño”, que começou em junho e deve persistir até o outono de 2027. Os autores afirmam que as temperaturas previstas serão semelhantes às máximas que as mudanças climáticas devem produzir daqui a cerca de 20 anos.

Dentro dessa comparação, o período atual é descrito no relatório como um “cartão-postal do futuro”. A ideia é mostrar como condições hoje consideradas excepcionais podem se tornar mais comuns nas próximas décadas.

Os autores distinguem esse cenário das projeções de longo prazo pela possibilidade de agir antes que as mortes ocorram. A proposta é usar as previsões para identificar antecipadamente as regiões onde o calor deverá produzir maior mortalidade e direcionar recursos para esses locais.

Alertas e centros de resfriamento

Entre as medidas de adaptação citadas no estudo estão sistemas de alerta de calor, ações de saúde voltadas a populações vulneráveis, centros de resfriamento, postos de hidratação, proteção de trabalhadores e ampliação da capacidade dos sistemas de saúde.

O Inventário de Adaptação do Climate Impact Lab reúne ainda estratégias como financiamento antecipatório, planos de ação contra o calor, visitas domiciliares de profissionais de saúde, ampliação do acesso à água, monitoramento de sintomas associados ao calor, previsões de temperatura mais precisas e maior acesso a tecnologias de resfriamento.

O relatório ressalta, porém, que muitas dessas intervenções foram avaliadas apenas em determinadas regiões geográficas. Para os autores, ainda é necessário ampliar a base de evidências sobre quais medidas funcionam e em quais contextos.

Como as mortes foram calculadas

A metodologia utiliza pesquisas do Climate Impact Lab que estimam a relação entre temperatura e excesso de mortalidade. O modelo considera diferenças entre regiões em fatores como clima local, vulnerabilidade e capacidade de adaptação.

Essas relações foram calculadas para 24.378 regiões em todo o mundo. Em seguida, os pesquisadores aplicaram os resultados às anomalias de temperatura projetadas pelo sistema de previsão climática sazonal de longo prazo ECMWF SEAS5.

O cálculo estima a mudança no excesso de mortalidade relacionada à temperatura em comparação com a média registrada entre 1996 e 2025.

A incerteza também foi incorporada ao modelo. A previsão sazonal utiliza um conjunto de 51 previsões, permitindo apresentar uma estimativa central e uma medida de incerteza. Os detalhes completos da metodologia ainda serão publicados em um periódico com revisão por pares.

‘Ainda é possível salvar vidas’

Apesar da dimensão das projeções, o relatório afirma que ainda existe margem para reduzir o número de mortes. A proposta é antecipar a identificação das áreas mais vulneráveis para que governos, organizações multilaterais e grupos humanitários possam concentrar recursos de emergência.

As previsões também poderão ser atualizadas para mostrar como a distribuição das mortes provavelmente muda ao longo do tempo.

 

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