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A fuga de Flávio Bolsonaro aos EUA, 2 dias depois da eleição

Senador deve receber visto do governo americano. Investigado por lavagem de dinheiro, ele havia sido intimado a entregar seus passaportes após a derrota na disputa pela Presidência

Flávio Bolsonaro (PL) chegou aos Estados Unidos nesta terça-feira (27), em uma fuga dois dias depois de sua derrota no segundo turno da disputa presidencial brasileira. Segundo a BBC Brasil, ele teria pousado na Flórida e sido recebido por seu irmão, Eduardo Bolsonaro. O Departamento de Estado dos EUA comunicou que o governo de Donald Trump vai conceder vistos para a entrada do senador e sua família no país.

De acordo com informações de bastidor obtidas pelo jornal Folha de S.Paulo, o plano para saída dele do Brasil contou com a participação do secretário de Estado americano, Marco Rubio. Ainda é incerto de onde o voo do senador teria partido.

Nesta terça, terminou o prazo para Flávio entregar seus passaportes à Polícia Federal. O ministro do Supremo Alexandre Moraes ordenou que ele o fizesse no domingo (25), depois que o senador perdeu as eleições para a Presidência da República.

A decisão de Moraes ocorreu em um inquérito que investiga Flávio e o advogado Willer Tomaz por lavagem de dinheiro. Ele também é alvo de outro inquérito no Supremo, sob relatoria de André Mendonça, por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no caso “Dark Horse”.

Segundo o site G1, a Polícia Federal havia apontado a Moraes três motivos que indicariam fuga de Flávio: uma fala de Eduardo Bolsonaro sobre uma possível saída do irmão do país; o “expressivo poder econômico” do senador; e a existência de estruturas “já estabelecidas no exterior” que poderiam facilitar uma estadia prolongada.

A fuga

As suspeitas de fuga vieram a público ainda na madrugada desta terça-feira (27), quando o portal argentino Infobae revelou que Flávio teria entrado na Argentina usando seu RG para embarcar em Porto Iguaçu, na província de Missiones, com destino ao território americano.

No entanto, não há registros oficiais nem da Polícia Federal brasileira nem das autoridades argentinas de que o senador tenha cruzado a fronteira entre os dois países. O jatinho que o Infobae apontou como aquele no qual ele embarcaria não levantou voo de Porto Iguaçu. Portanto, seu ponto de partida teria sido de outro lugar.

Flávio Bolsonaro está incomunicável. O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio à Presidência, negou em um primeiro momento que o candidato derrotado nas eleições de 2026 tivesse deixado o país.

No domingo (25), pouco depois da oficialização da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas urnas, o ministro do Supremo Alexandre de Moraes assinou uma decisão intimando o senador a entregar seus passaportes à Polícia Federal.

Flávio gravou um vídeo na segunda-feira (26) afirmando que foi abordado por agentes depois de uma visita ao pai em Brasília. Segundo ele, o que teria embasado a decisão de Moraes foi uma declaração de seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), na sexta-feira (23). “Se meu irmão não ganhar, eu sou a favor de que meu irmão saia do país. Com certeza”, disse Eduardo em entrevista a um podcast americano.

As investigações

A decisão de Moraes foi dada no âmbito de um inquérito que investiga a suspeita de lavagem de dinheiro em uma possível sociedade oculta de Flávio com o advogado Willer Tomaz.

A investigação começou na primeira instância da Justiça Federal no Rio Grande do Sul, onde eram apurados crimes como lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo plataformas de apostas.

Ao longo da investigação, a Polícia Federal identificou “elementos indicativos de vínculo de controle ou propriedade de fato de Willer Tomaz sobre a Rede Loto”, primeira plataforma de bet a obter autorização do governo do Rio de Janeiro para explorar apostas esportivas. O advogado, então, passou a ser investigado.

Willer Tomaz movimentou cerca de R$ 5 bilhões em bets em 2025. Além disso, a Polícia Federal diz que apenas uma das contas bancárias do advogado movimentou cerca de R$ 130 milhões no período de março a maio de 2025, apontando a necessidade de aprofundar a origem e a destinação dos recursos.

Numa quebra de sigilo telemático de Tomaz, os investigadores identificaram vínculos entre o advogado e Flávio, que tem foro privilegiado — por isso, o caso foi remetido ao Supremo.

A investigação menciona registros de festas, encontros e reuniões entre Tomaz e Flávio, pagamentos de viagens ao senador, empréstimos de imóveis e vínculo em uma conta bancária em nome da Alcazar Holding, na qual o candidato era mencionado como “usuário master”.

Além disso, a investigação aponta que pagamentos de clientes do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro foram depositados nessa conta. O senador recebeu cerca de R$ 13,7 milhões por serviços de advogado desde que assumiu seu mandato no Congresso, em 2019.

Enquanto isso, a imprensa revelou que Tomaz pagou viagens para Flávio e sua família, além de ter transportado o senador em um jato particular que mantinha em sociedade com Daniel Vorcaro, do Master – coincidentemente o mesmo em que Alexandre de Moraes viajou, em um dos capítulos das suspeitas envolvendo a relação do ministro do Supremo com o ex-banqueiro.

Os investigadores apuram se o vínculo entre Flávio e Tomaz é, na verdade, uma sociedade oculta que pode ter movimentado grandes volumes de dinheiro de origem ilícita. Flávio e Tomaz negam ter negócios em comum.

Esse não é o único inquérito contra Flávio Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal. Em outra investigação, sob relatoria do ministro André Mendonça, a Polícia Federal apura se os R$ 134 milhões negociados com Vorcaro sob o pretexto de financiar o filme “Dark Horse” constituiu crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

O dinheiro foi transferido por Vorcaro para um fundo sediado nos Estados Unidos e gerido pelo advogado Paulo Calixto, próximo a Eduardo Bolsonaro. Uma das hipóteses da Polícia é de que os recursos tenham sido usados para custear a estadia do ex-deputado no país enquanto ele articula retaliações e sanções contra autoridades brasileiras.

O histórico

Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025. Na época da mudança, ele disse que foi ao país se dedicar “em tempo integral” a obter a anistia aos envolvidos na tentativa de golpe de Estado comandada por seu pai após a derrota nas eleições de 2022.

Eduardo é próximo da extrema direita americana desde que Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil em 2018. Dali em diante, ele estreitou laços com membros do Partido Republicano e conseguiu ter acesso ao primeiro escalão da Casa Branca.

Em junho de 2025, o presidente dos EUA, Donald Trump, decretou um tarifaço contra o Brasil, sob motivos políticos. Ele afirmou que Bolsonaro era vítima de uma perseguição política, em alusão ao avanço da ação penal por tentativa de golpe de Estado contra o ex-presidente.

A Casa Branca também lançou uma série de sanções financeiras contra autoridades brasileiras, como Alexandre de Moraes, relator da ação contra Bolsonaro. Mesmo assim, o ex-presidente foi julgado e condenado a 27 anos de prisão em setembro daquele ano.

As tarifas contra a economia brasileira e as penalidades contra as autoridades acabaram sendo removidas ainda em 2025, mas novas medidas contra o Brasil foram tomadas em 2026.

Em 2025, Eduardo teve o mandato cassado na Câmara. Em 2026, foi condenado a 4 anos e 2 meses de prisão por coação de Justiça, devido à sua atuação junto a autoridades americanas para tentar impedir o julgamento do pai.

Eduardo não é o único bolsonarista a ter fugido do país diante do avanço das investigações sobre a tentativa de golpe. Alexandre Ramagem, ex-deputado que teve o mandato cassado no mesmo dia de Eduardo, saiu clandestinamente do país pela fronteira de Roraima com Guiana e fugiu de lá para os Estados Unidos, onde está até hoje.

 

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