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Empregos sob risco: quem perde com o tarifaço de Trump? Economistas e líderes empresariais respondem

Eles pedem que o governo evite uma escalada de tensões e defendem negociação

O anúncio feito ontem pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que pretende taxar importações de produtos brasileiros em 50% a partir de 1º de agosto, pegou de surpresa as associações comerciais dos principais setores afetados no Brasil. Após o comunicado da Casa Branca, entidades manifestaram preocupação com o impacto da medida sobre a economia, a produção e os empregos. Elas pedem que o governo evite uma escalada de tensões e defendem a negociação.

Especialistas ponderam que embora o diálogo seja essencial, a maneira como a taxação foi anunciada, com justificativa política, leva a crer que o Brasil será forçado também a aprofundar relações com novos parceiros comerciais.

Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil. No ano passado, as vendas de produtos brasileiros ao país ultrapassaram os US$ 40 bilhões. No agronegócio, Brasil e EUA são concorrentes no mercado mundial de alguns produtos, como soja e algodão.

Os principais produtos exportados para os EUA foram siderúrgicos, aeronaves, óleos combustíveis, petróleo, café e carne bovina fresca. Já os itens mais comprados pelo Brasil foram motores e máquinas, óleos combustíveis, aeronaves, petróleo e carvão.

Impacto no PIB

Em relatório, Alberto Ramos, diretor de Pesquisa Econômica para América Latina do Goldman Sachs, afirma que o país terá aumento efetivo de taxação das exportações brasileiras de 35 pontos percentuais. E que a medida terá impacto negativo de 0,3 a 0,4 ponto percentual no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. E medidas retaliatórias gerariam efeitos mais negativos.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) diz que a prioridade do país deve ser “intensificar a negociação com o governo de Donald Trump”. “Os impactos dessas tarifas podem ser graves para nossa indústria, que é muito interligada ao sistema produtivo americano. Uma quebra nessa relação traria muitos prejuízos a nossa economia. Por isso, para o setor produtivo, o mais importante agora é intensificar as negociações e o diálogo para reverter essa decisão”, diz Ricardo Alban, presidente da CNI, em nota.

A Federação das Indústrias do Estado do Rio (Firjan) manifestou preocupação e defendeu a intensificação da atuação diplomática.

A Câmara Americana de Comércio (Amcham Brasil) disse em nota que o anúncio pode “causar impactos severos sobre empregos, produção, investimentos e cadeias produtivas integradas entre os dois países” e pede a retomada de diálogo construtivo.

A entidade, que promove laços empresariais entre os dois países, afirma que o comércio é fortemente complementar, com benefícios para ambos os lados, “sendo superavitário para os EUA ao longo dos últimos 15 anos”.

O presidente do conselho da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) disse que a tarifa de 50% torna “praticamente inviável” a operação, afetando faturamento e empregos, e que o país deve se pautar pelo pragmatismo. Ele pondera que o impacto não se restringe a produtos finais, mas a toda a cadeia produtiva, com pressão em setores que dependem de embalagens, como alimentos, componentes automotivos e fertilizantes.

“Estamos passando de um dos países com menores tarifas de importação para uma situação de isolamento comercial. Isso desestimula o investimento produtivo e compromete a credibilidade do Brasil como parceiro confiável”, afirmou Roriz, em nota.

Para o setor de calçados, o anúncio foi um “balde de água fria”. Haroldo Ferreira, presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) lembrou que em junho houve alta de 24,5% nas exportações, puxadas pelos EUA.

“No primeiro semestre, estávamos, aos poucos, recuperando mercado nos EUA, apesar de todas as instabilidades”, lamenta Ferreira, em nota.

‘Tratamento de inimigo’

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) pediu que a diplomacia brasileira dê uma “resposta firme”. “Momento é de cautela, diplomacia afiada e presença ativa do Brasil na mesa de negociações”, afirmou nota da bancada ruralista.

O ex-secretário de Comércio Exterior brasileiro e sócio da consultoria Welber Barral, vê consequências políticas e econômicas após a decisão de Trump.

Com uma canetada, Trump ameaça 200 anos de uma relação bilateral positiva — afirmou.

Para Barral, o maior impacto será sentido nos setores de aços e metais para indústrias americanas que têm cadeias integradas com o Brasil, como as automotivas, de tratores e equipamentos. Ele avalia que haverá reforço no discurso Sul-Sul. Apesar de defender o diálogo, não vê grande chance de êxito:

— Buscar, sem alarde, mercados alternativos é um caminho provável, mas de longo prazo. Ter uma retórica antiamericana crescente é possível, importante politicamente, mas negativa no médio prazo. E, por último, aplicar a Lei de Reciprocidade contra propriedade intelectual e serviços dos EUA é uma medida improvável, mas a única que incomodaria os EUA.

Na avaliação de José Augusto de Castro, presidente executivo da Associação de Comércio Exterior (AEB), os mais atingidos devem ser itens semiacabados de ferro e aço, aeronaves e até sucos de frutas. Ele destaca que a sanha tarifária de Trump começou com argumentos pela segurança nacional, depois de balança comercial desfavorável aos americanos e agora embarca em justificativa política.

— O Brasil estava na linha de tiro desde a reunião do Brics, e agora foi atingido. Uma sobretaxa nesse nível trata o Brasil como um dos principais inimigos dos EUA. E isso cria uma imagem muito negativa para o Brasil. Quem irá querer negociar conosco? — questiona. — Espero que não tenhamos nenhum anúncio do governo de forma dura. Mais do que nunca, é hora de os diplomatas entrarem nas discussões, porque entre os governos isso se tornou insustentável.

Carlos Primo Braga, professor associado da Fundação Dom Cabral, está pessimista quanto à negociação:

— Teremos que conviver com esses 50%, diversificar exportações com o resto do mundo. Realimentar esses esforços no Brics, embora não tenham gerado grandes benefícios. Podemos ter aproximação ainda maior com a China.

O caminho de fazer queixa à Organização Mundial do Comércio (OMC) está fechado, com o organismo multilateral esvaziado, diz Braga. Retaliar seria um “tiro no pé”:

— O Brasil levar o caso para OMC não vai levar a nada. Outra opção é negociar cotas, como foi feito em 2018, 2019, no caso do aço. Mas não vejo nenhum espaço para isso agora. Virou questão política, ligada a questões de soberania do país.

O embaixador Luiz Augusto Castro Neves, presidente do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), avalia que a medida deve trazer prejuízos aos americanos, principalmente se o governo brasileiro decidir retaliar. Isso porque a balança comercial é mais favorável aos EUA:

— É uma medida inteiramente antiamericana.

 

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