O tabagismo é reconhecido como uma doença crônica causada pela dependência à nicotina presente nos produtos à base de tabaco. Ele também é considerado a maior causa evitável isolada de adoecimento e mortes precoces em todo o mundo. O Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado em 29 de agosto no Brasil, visa reforçar as ações de conscientização sobre os danos causados pelo tabaco à saúde e à sociedade. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), todos os anos, 8 milhões de pessoas morrem no mundo devido ao uso do tabaco.
O tabaco pode ser fumado na forma de cigarros, charutos ou cachimbo, incluindo cachimbo de água (narguilé), cigarros eletrônicos e também há o tabaco que não produz fumaça, que são as gomas de mascar e sachês. O consumo de cigarros, que é a forma mais prejudicial de tabagismo, continua sendo a maneira predominante de uso de tabaco por adultos, enquanto que os cigarros eletrônicos são a forma mais comum de tabagismo entre os adolescentes.
Adolescência e o uso de tabaco
Apesar do declínio da prevalência do tabagismo em adultos, a prevalência do tabagismo entre os jovens permanece estável em torno de 5% para ambos os sexos e a taxa de experimentação em torno de 19% para meninos e 17% para meninas. A maioria das pessoas que fazem uso do tabaco iniciam antes dos 18 anos, fazendo com que o tabagismo seja considerado um distúrbio hebiátrico e/ou pediátrico. Os principais fatores de risco de início do tabagismo na infância ou adolescência são o tabagismo de familiares e colegas, bem como exposição à publicidade do tabaco na mídia impressa e mídias virtuais e nos pontos de venda em lojas, além das cenas de tabagismo nos filmes e videogames.
Os cigarros eletrônicos são populares, especialmente entre adolescentes, em razão do seu alto teor de nicotina, disponibilidade de sabores sem gosto de tabaco e designs discretos. A nicotina presente nos cigarros eletrônicos é uma droga altamente viciante que pode comprometer o desenvolvimento cerebral de crianças e adolescentes.
Muitos cigarros eletrônicos ou vapes entregam altos níveis de nicotina nos pulmões, o que aumenta o risco de dependência. No caso desses cigarros, há menos sinais que indicam a quantidade consumida, como acontece ao se contar as bitucas de cigarros fumados. Muitos aparelhos de cigarro eletrônico fornecem de 5.000 a 6.000 tragadas, o que equivale a 500 a 600 cigarros ou 25 a 30 maços de cigarro.
A venda deste produto é proibida pela Anvisa no Brasil desde 2009, mas eles podem ser usados livremente pelos adolescentes. Os jovens podem começar a usar esse tipo de cigarro com nicotina por curiosidade, diversão e se tornarem viciados nessa substância. Com o passar do tempo, como o cigarro eletrônico é mais caro, pode ocorrer a troca desse produto por tipos mais baratos como o cigarro comum.
Além dos cigarros eletrônicos, os adolescentes também podem fazer uso do narguilé. Este equipamento de origem árabe aquece o fumo com uma brasa, gerando fumaça que passa por um tubo até um leito de água. A água resfria a fumaça, que é aspirada pelo usuário. Não há ainda nenhuma legislação específica para o uso do narguilé no país.
Para o pneumologista do Hospital das Clínicas da UFMG, Luiz Fernando Ferreira Pereira, o narguilé é considerado um problema de saúde pública, uma vez que as substâncias encontradas são as mesmas do tabaco. “Uma hora de inalação contínua de narguilé equivale à fumaça de 100 cigarros”. Para Frederico Garcia, esses produtos transmitem a falsa sensação de segurança. “O que existe é um apelo por uma criação de uma demanda forçada para esses produtos, principalmente entre os jovens”, avalia.
Tabaco e câncer
Além da dependência, o uso de tabaco está relacionado a mais de 20 tipos de cânceres e é responsável por 25% de todas as mortes por câncer no mundo. O fumo e o uso de tabaco sem fumaça podem causar câncer de pulmão, boca, lábios, garganta (faringe e laringe) e esôfago. Os fumantes correm um risco significativamente maior de desenvolver leucemia mieloide aguda; câncer nas cavidades nasais e paranasais; câncer colorretal, renal, hepático, de pâncreas, estômago ou ovário; e câncer do trato urinário inferior (incluindo bexiga, ureter e pélvis renal).
Alguns estudos também demonstraram uma ligação entre o tabagismo e o risco aumentado de câncer de mama, particularmente entre as mulheres que fumam muito e as que começaram a fumar antes da primeira gravidez. Também se sabe que fumar aumenta o risco de câncer do colo do útero em mulheres infectadas com o papilomavírus humano (HPV).
Outros malefícios
Apenas alguns cigarros por dia, o fumo ocasional ou a exposição ao fumo passivo aumenta também o risco de doenças cardíacas. Fumantes de tabaco têm até duas vezes mais risco de derrame e quatro vezes mais risco de doenças cardíacas. Além disso, há maior probabilidade de sofrer de infertilidade e disfunção erétil, aumenta o risco de desenvolver psoríase e doenças oculares como catarata e glaucoma.
Fumantes adultos têm ainda maior probabilidade de sofrer perda auditiva, desenvolver diabetes e demências como o Alzheimer. O uso de tabaco e a exposição à fumaça do tabaco durante a gravidez aumentam o risco de morte fetal e de aborto espontâneo. Crianças em idade escolar expostas aos efeitos nocivos do fumo passivo também estão sob risco de asma. Crianças com menos de 2 anos de idade expostas ao fumo passivo em casa podem ter comprometimentos na audição capazes de levar à surdez.
O uso do tabaco pode afetar também negativamente as interações e relacionamentos sociais, pois há restrições e espaços para fumantes, saídas constantes para fumar e o que pode levar ao isolamento social. Além disso, há gastos mensais com cigarros e gastos médicos. O uso do tabaco sobrecarrega também a economia global com cerca de US$ 1,4 trilhão em custos de saúde para o tratamento de doenças causadas pelo tabaco e a perda de capital humano devido a doenças e mortes atribuíveis ao tabaco.
A carga do tabagismo em 2020, em termos de mortalidade, morbidade, custos da assistência médica das principais doenças relacionadas ao consumo de produtos de tabaco no Brasil e custos indiretos relacionados a incapacidade e perda de produtividade atribuída ao tabagismo, bem como custos indiretos com cuidados familiares, aponta que naquele ano, o tabagismo foi responsável por pelo menos:
- 853 óbitos.
- 953 novos casos de Doenças cardíacas.
- 729 novos casos de Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC).
- 737 Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC).
- 261 novos diagnósticos de Outros Cânceres.
- 126 novos diagnósticos de Câncer de Pulmão.
- R$ 50.289 bilhões de custos médicos diretos, o equivalente a 7,8% de todo o gasto com saúde.
- R$ 42.452 bilhões em custos indiretos decorrentes da perda de produtividade devida à morte prematura e incapacidade.
- R$ 32.400 bilhões em custos de cuidados de familiares e pessoas próximas.
Durante o ano de 2020, o tabagismo foi responsável por 161.853 mortes (443 mortes ao dia). Este valor representa 13% do total das mortes que ocorrem no Brasil anualmente. Quanto ao grupo de causas das mortes anuais atribuíveis ao tabagismo: 37.686 correspondem à Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica; 33.179 às Doenças Cardíacas; 25.683 a outros cânceres; 24.443 ao câncer de pulmão; 18.620 ao tabagismo passivo e outras causas, 12.201 à pneumonia e 10.041ao acidente vascular cerebral (AVC).
O montante de R$ 125.148 bilhões são os custos dos danos produzidos pelo cigarro no sistema de saúde e na economia. Os custos da assistência médica atribuível ao tabagismo totalizaram R$ 59.280 bilhões, o que equivale a cerca de 7,8% de todos os gastos anuais em saúde, e os custos indiretos R$ 42.452 bilhões devido à produtividade perdida por morte prematura e incapacidade. Além de R$ 32.407 bilhões de custos indiretos de familiares e pessoas próximas que dedicam tempo ao cuidado de quem adoece por causa do tabagismo.
A arrecadação fiscal pela venda de derivados do tabaco foi de aproximadamente R$ 12.227 bilhões, valor que cobre apenas 10% dos custos econômicos totais provocados pelo tabagismo ao sistema de saúde e na sociedade.