Oriente Médio: inacessibilidade de consciências e cegueira ética ocidental

José Archângelo Depizzol – 13/11/2016.

O texto a seguir não significa obrigatoriamente uma opinião, uma convicção, ou a defesa e argumentação de uma linha de pensamento do autor. Trata-se unicamente de um ponto de vista. Há que se esclarecer que “Ponto de Vista” é diferente de opinião, de argumentação, de tese e de convicção. O Ponto de Vista é apenas um objeto, um assunto ou um fenômeno visto a partir de um ponto. A mesma paisagem vista pelo comandante de uma aeronave é percebida de forma bem diferente da visão de um turista com uma máquina fotográfica em mãos e, ainda, é percebida de maneira também diferente pelo olhar do isolado habitante da floresta imerso dia e noite na referida paisagem. A paisagem é a mesma. A percepção é diferente. O olhar do piloto da aeronave não é contrário à percepção do isolado habitante da floresta e, tampouco, é contrário à forma de ver a paisagem do extasiado turista. Assim é o texto. Procuro fazer um esforço intelectual para ver a partir de um determinado ponto: o ponto focal de percepção de sírios e palestinos diante de sérias questões levantadas com o desmoronamento de princípios éticos basilares. Trata-se de “Ponto de Vista”.

Salta aos olhos do mundo a estarrecedora situação e as atrocidades tão comuns na Síria que, por si só, já configuram uma blindagem ética em escala universal, como também a situação da Palestina que, desde o grande êxodo em 1948 (Nakba), teve que resistir e fazer frente a consciências rígidas, fanáticas, inacessíveis, hipócritas e pérfidas. Nesse contexto geopolítico Ética tornou sinônimo de conveniência, de interesses e de acordos internacionais. Infelizmente.

O silêncio e a indiferença do ocidente diante da trágica situação da Síria e da Palestina revelam a dança de valores basilares no labirinto de decadência moral, ética e humanística e que se manifesta por um conjunto de termos que envolvem o racismo, o etnocentrismo, a xenofobia e a xenelasia voltados contra povos de matriz árabe e que professam sua fé a partir do islamismo. E mais, há que se levar em conta a pretensa ideologia do capitalismo ocidental que visa metamorfosear o ser humano do oriente médio em bárbaro, em objeto, ou em simples mercadoria numa publicidade maligna que demoniza povos de origem árabe. A situação da Síria hoje põe em evidência o aniquilamento, o esfriamento e, mesmo, a eliminação da consciência humana. A indiferença mundial diante da matança, do genocídio e do extermínio de milhares de civis – incluindo pessoas indefesas como crianças e idosos tanto na Síria quanto na Palestina – faz ruir o Processo Civilizatório Ocidental (Darcy Ribeiro) como concepção social e política do humano. O silêncio e a indiferença do ocidente atentam contra qualquer concepção humanística, cristã e ética.

Essas reflexões são apresentadas apenas como subsídio para que se discuta a questão da Síria e da Palestina (sem menosprezar outros povos também muito sofridos). Não há, no texto, nenhum objetivo e/ou posicionamento político-ideológico pró-árabes e antissionistas. Repito: é “Ponto de Vista”.

Ainda que pese uma política tíbia, ineficaz e vergonhosa de alguns dirigentes palestinos, tornando prática comum os discursos vazios, a demagogia, a corrupção e o uso indevido da religião, há que se reconhecer a autenticidade e a solidez de valores do povo palestino, ressaltando sua tenacidade e resistência, sua capacidade de aceitar sacrifícios, seu amor à causa de seu povo e sua fé, sem permitir que seja mascarada a justa causa da luta do povo palestino. Nesse patamar o povo palestino deposita credibilidade inabalável de sua superioridade moral.

O povo sírio também levantou a bandeira da consciência ética exigindo, ao preço de muito sangue e de tantas vidas, o respeito à sua dignidade pessoal e de nação. Isso representa também um quesito ético universal que o sofrido povo sírio brinda ao mundo, apesar da política adotada pelos diferentes grupos de oposição, incapazes todos de elaborar um marco referencial que efetivamente coloque nos devidos lugares os anseios e os enormes sacrifícios assumidos pelo povo sírio em sua luta pela liberdade de ser humano, pelo seu direito à justiça (pessoal e social), e pelo respeito ao inalienável direito à dignidade individual e coletiva.

O mundo hoje ainda lembra o inominável ato terrorista de 11/09/2001, com o atentado contra as torres de World Trade Center, mas não faz a menor referência e deixa no esquecimento mundial o bárbaro massacre por armas químicas na cidade de Allepo, na Síria, no dia 21/08/2013. Da mesma forma, a mídia internacional faz questão de condenar ao ostracismo e ao esquecimento internacional o inumano massacre da NAKBA (catástrofe, em árabe) e que marca o princípio da tragédia que se abateu sobre o Povo Palestino, perseguido, massacrado e expulso da sua terra pelos novos ocupantes, o povo israelense cujo estado fora reconhecido pela ONU em 1948.

Nada contra Israel, mas a geopolítica do capitalismo ocidental para o oriente médio mantém a mesma lógica do sangue árabe lavando as mãos israelenses.

Silêncio e omissão ocidental. Silêncio suspeito. Por que o mundo se cala diante de tanto sangue palestino em confrontos com Israel? Por que o mundo se cala diante do massacre provocado pelas armas químicas na cidade de Allepo, na Síria? Por que o mundo não reagiu à infame transação que se seguiu ao massacre de Allepo (2013) quando russos e americanos fizeram de cadáveres sírios um cartão postal macabro com a finalidade exclusiva de destruir o arsenal químico do bárbaro e despótico regime sírio e oferecer esse serviço gratuito a Israel?

Nesse contexto cabe perceber a ação ideológica do silêncio que omite o sofrimento e as atrocidades genocidas contra populações de origem árabe. Cabe também a ideologia do maniqueísmo que deifica os aliados do ocidente e demoniza o outro lado.

Como calar a voz da consciência, da alma e da razão do mundo diante de tanto sofrimento, lágrimas e sangue de inocentes crianças e anciãos palestinos e sírios? Como explicar (se é que seja possível) a recente matança de quase cem crianças na cidade síria de Allepo?

Como o mundo pode manter-se frio e indiferente diante do abominável acordo das armas químicas? Como o mundo pode se dobrar diante do despotismo depredador do planeta, dizimador de povos e nações, e fechar os olhos diante de um dos maiores massacres perpetrados desde a segunda guerra mundial?

Foi necessário que famosos escritores se levantassem contra a cegueira ocidental para desvendar a profundidade da tragédia palestina, bem como o árduo trabalho de literatos e historiadores palestinos e de jovens historiadores israelenses para desvelar a grande mentira que tem ocultado o silencio das vítimas palestinas e abafado seus gemidos.

Apesar de tudo que se tem escrito sobre o confronto da ética com a infâmia percebe-se, nos meios de comunicação ocidental, o intento lúgubre que procura condenar mais a vítima que o agressor; no entanto, o forte clamor do povo sírio proclama num grito alto e forte que as vítimas sírias enfrentam hoje uma infâmia mais grave, una ignorância deliberada e um oportunismo moral singular.

Quando da constituição do estado de Israel, em 1948, o mundo inteiro (inclusive o mundo árabe) não quis saber do drama, da dor e do sofrimento de idosos e crianças no êxodo palestino; hoje, ninguém pode ignorar o drama, o sofrimento, dores, mortes e êxodo do povo sírio.

Fotos de crianças feridas ou mortas, fotos de idosos desesperados, fotos de pais e mães que choram seus filhos abatidos pela guerra, pela fome ou pelo mar… fotos de dor e sofrimento que se transformaram em ícones da vergonha e da cegueira moral ocidental, cumprindo sua função ideológica de tornar indiferente e familiar a dor e a morte de milhões de refugiados sírios que têm diante de si a opção única de permanecer em sua terra e morrer – certamente – pela guerra, ou lançar-se mar adentro enfrentado o frio, a fome, a incerteza, a hostilidade e as agressões de governos e de grupos xenófobos e neonazistas.

As imagens são nítidas. O silêncio ocidental é tão pusilânime quanto covarde. O abismo moral é universal.

Silêncio. Nulidade moral. Covardia. Sob a alegação da existência do Estado Islâmico – e grupos equivalentes – apresentam-se justificativas para os assassinatos, as destruições, os bombardeios, e se constroem argumentos que façam aceitar a violação do território sírio por aviões russos e por milícias iranianas.

Grupos fanáticos das duas partes adversárias despojaram a síria e, de certa forma, ambos protegem o bárbaro regime que abriu as portas do país à morte, rasgou as veias e a alma do povo sírio transformando-os em hordas de refugiados. Toda força de seus argumentos não valem a lágrima de uma criança, o clamor sufocado no gemido de uma mãe, ou o estertor de só homem que geme sob os escombros ou diante de seu filho inerte cuja vida fora ceifada nas águas geladas do mediterrâneo.

A política – em termo genérico – segue marchando em sentido contrário aos princípios éticos que devem direcionar o comportamento humano, pois o fundamento básico de qualquer análise ética é a vida e a dignidade do ser humano.

A questão não se resume numa crítica à política ocidental ou à política concretizada por povos oriundos da cultura árabe, mas se tem necessidade de um despertar moral que reconfigure nossa alma e nossa racionalidade que nos retire da letargia e da insensibilidade diante do massacre de tantos inocentes. Síria e Palestina são medida ética e humana incontestáveis, e todo argumento que se encontre para manter o silêncio e a imobilidade internacional é ato de criminosa omissão.

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